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Dentes alinhados, ossos no lugar Por Gabriela Cupani O nome oficial é estranho: ortopedia funcional dos maxilares. Sim, ortopedia, porque, mais do que corrigir a posição dos dentes, ela age nos músculos e nos ossos da boca. Embora essa corrente tenha crescido na Europa do pós-guerra na mesma época em que a ortodontia se desenvolvia nos Estados Unidos, só agora ela está ganhando terreno no Brasil. Em novembro passado foi reconhecida como uma especialidade da Odontologia e deu o que falar no último congresso internacional da área, que aconteceu no ínicio do ano, em São Paulo. Assim como a ortodontia, a ortopedia resolve problemas de oclusão, mas o modo como os encara e os meios de consertá-los são outros. Ela vai além da recauchutagem dos dentes. Tem a vocação de resolver as falhas no trabalho de boca, mastigação, deglutição e fala, por exemplo, acreditando que isso repercute sobre o corpo todo. Dentes desalinhados afetam as cadeias musculares Na infância, os ossos da face crescem à medida que a boca se mexe - ao falar, mastigar... Para que tudo corra bem, essas tarefas devem ser executadas corretamente. "Só assim cada músculo é estimulado de maneira adequada, provocando as mudanças necessárias nos osso", explica o dentista Marcos Pancera, de São Paulo. Como os músculos estão interligados em cadeias, é fácil perceber que, lentamente, um problema na arcada dentária pode acabar atingindo o corpo inteiro. Mastigar de um lado só e respirar pela boca são exemplos de maus hábitos que acabam interferindo no funcionamento bucal e deslocando os dentes. Diante de uma boca torta, a tarefa dos especialistas é fazer uma investigação minuciosa dos prejuízos. Eles analisam a oclusão, a posição das arcadas, dos dentes se estão para frente ou para trás, se as laterais se encaixam bem, as assimetrias ósseas da face. Tudo é rigorosamente observado. Antes de definir o rumo do tratamento, o dentista pede ainda uma radiografia completa da cabeça até a sétima vértebra da coluna, bem no final da nuca. "É o ponto de partida para a gente avaliar se o resto do corpo foi atingido", diz o dentista Dalton Cardoso, de São Paulo. Além do sorriso bonito Todas as informações coletadas acabam apontando como os maxilares e seus músculos deveriam ser movimentados, digamos, de uma maneira terapêutica, para corrigir seus desvios. "No final a pessoa acaba mastigando, deglutindo e até digerindo com mais facilidade, além de se sair melhor na fala e na respiração", observa o diretor científico da Sociedade Paulista de Ortodontia, Eduardo Sakai. A melhora nos dentes acaba sendo uma espécie de conseqüência. Tem até gente que deixa de sentir dor nas costas, um ótimo efeito colateral do tratamento. Efeito em cascata Um desequilíbrio simples, como o hábito de mastigar de um lado só, pode ter sua parcela de culpa em estragos bem longe da boca. Veja como isso acontece. 1. Sobrecarregados, os músculos do pescoço ficam encurtados no lado que trabalha mais e a cabeça pende levemente para essa direção. 2. O cérebro, com seus sensores do equilíbrio, manda um recado ao corpo para recuperar o centro de gravidade. A compensação do equilíbrio acontece nos ombros, o que provoca uma torção na coluna. 3. Os quadris são os próximos atingidos, tentando compensar, por sua vez, os ombros tortos. Quando se inclinam, as próximas vítimas são as pernas. O custo total do tratamento é similar ao da tradicional ortodontia Eles também indicam aparelhos, mas para corrigir toda a face. É por meio de aparelhos móveis, muito parecidos com os modelos ortodônticos, que os especialistas em ortopedia funcional dos maxilares remontam as estruturas da face. Mas em vez de levar à força o dente até o lugar correto, como de certa maneira acontece com os da ortodontia, estes buscam agir nos músculos, os grandes responsáveis por abrir espaço para o reposicionamento dos maxilares. Quer dizer, a ortopedia provoca uma mudança na posição dos dentes de forma indireta. "A missão do aparelho não é impor a nova ordem, mas conduzir suavemente tudo o que está fora de lugar", esclarece Dalton Cardoso. Quanto mais cedo começar o tratamento, mais rápido será o resultado. Tudo vai depender, é claro, da idade do paciente e da gravidade do caso. Uma criança com um dano simples pode ser liberada da cadeira do ortopedista em seis meses. "Os adultos também conseguem ótimos efeitos, embora demore mais", frisa Pancera. Em crianças o tratamento é mais preventivo. Conforme o caso, outros profissionais, como fonoaudiólogos e fisioterapeutas, entram em cena. Não importa a idade, mesmo depois de aposentar o aparelho é necessário ficar de olho nas mudanças que ocorrem na boca durante as visitas periódicas ao dentista, a cada seis ou oito meses. Afinal, qualquer fator, uma obturação um pouquinho mais alta, por exemplo, pode tirar tudo novamente do lugar. Cuidados desde cedo A boca precisa trabalhar direito já na infância. Para isso o bebê deveria ser amamentado até 1 ano de idade, pois é o movimento de ordenha do leite que desloca o maxilar inferior para a frente, estimulando os músculos e abrindo espaço para o crescimento adequado da arcada. Quando, por volta dos 6 meses, os alimentos semi-sólidos são liberados, o certo é não abusar das papinhas, que poupam o esforço da mastigação. Aos 3 anos a criança pode e deve morder alimentos duros, o que, diga-se, é essencial para o desgaste saudável dos dentes, que nascem bem pontudos. Cabeça no lugar Uma prótese mal adaptada levou a analista de sistemas paulista Suely Sakurai, de 36 anos, a mastigar de um lado só durante vários anos. "Nas fotos, minha cabeça aparecia inclinada e uma médica sugeriu que o problema poderia estar nos dentes", conta. "Com seis meses usando aparelhos já deu para notar a diferença", comemora.
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