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Leia o texto "Somos boca e garganta. Insaciáveis", do Prof. Jorge Pinheiro.

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"Então, do pó da terra, o SENHOR formou o ser humano. O SENHOR soprou no nariz dele uma respiração de vida, e assim ele se tornou um ser vivo".

Esse texto tão sintético do livro de Gênesis descreve a natureza humana e a relaciona com Deus. E o ato de soprar de Deus descrito acima traduz o fato de que as coisas do intelecto e do coração expressam-se através dos órgão da fala, em especial, da garganta e boca, que possibilitam o sopro.

Essa imagem simboliza a interioridade da natureza humana, pois para que o ser humano possa dar a internsidade e profundidade a sua inteligência precisa de verbalizar, expressar, comunicar-se. O ato de soprar significa que Aquele que soprou o fez numa determinada direção e com um objetivo definido. Aqui, a direção do sopro e seu objetivo traduzem o destino humano.

A matéria-prima utilizada por Deus na modelagem do ser humano é ordinária, é carbono, matéria pertencente a ordem comum de inanimados e animais. Mas é o sopro que faz especial essa matéria ordinária. E aqui não estamos somente diante de uma imagem, mas do fato de que a força criadora de Deus não transmite a essa matéria somente vida, mas também intesidade e profundidade.

Somos seres pleno de vida, ou conforme diz o texto em hebraico nefesh hayah. Procedemos da interioridade de Deus. Dessa maneira nefesh liga o céu e a terra, o que está acima e o que está abaixo. Por isso, a natureza humana traduz a ação mediadora da força criadora de Deus e procede de atributos divinos discretos, que se traduzem na integridade da pessoa, na pluralidade social e na abertura à transcendência.

Assim, nefesh deve ser entendida enquanto a natureza que se torna compreensível. É o transbordamento do Espírito de Deus, que indica transbordamento no humano. O texto de Gênesis que trata da modelagem humana é sintético. Daí que a chave para chegarmos a uma compreensão dele, exige identificar com que parte do corpo o ser humano pode ser comparado e onde o agir humano faz interface com nefesh.

A expressão nefesh aparece 755 vezes nas Escrituras hebraicas e é traduzida 600 vezes na Septuaginta por psyché. Mas no original hebraico a expressão significa boca, garganta, estômago e transmite a idéia de necessidade, de algo difícil de ser saciado.

Nesse sentido, a palavra alma que utilizamos em português nos dá uma tradução incompleta de nefesh, pois a idéia é que "o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou em suas narinas o seu hábito e o homem se tornou um ser vivo que necessita Dele para ser saciado".

Assim a expressão hebraica nefesh não traduz algo bom ou mal, mas a realidade das necessidades do ser humano, que, ao não serem preenchidas por Deus, produzem alienação, individualismo e ignorância.

Mas como o sopro de Deus pode ter gerado um ser humano com tal índole de insaciabilidade? Se entendermos nefesh como o órgão das necessidades vitais, dos movimentos emocionais da alma, somos levados a entender o pensamento hebraico ao ver a nefesh como síntese da própria vida. Assim, as necessidades humanas criadas por Deus só podem ser saciadas por Ele.

Esse é o destino do ser humano: ter a sua nefesh saciada por seu Criador e a partir daí relacionar-se com Ele, com o universo, com seus semelhantes e consigo mesmo.

Nesse caso, temos uma nefesh em equilíbrio, o que se traduz em integridade da pessoa, pluralidade social e abertura à transcendência.

Assim nefesh traduz também abertura à transcendência. Aqui estão dados os elementos que nos permitem entender porque faz parte do ser humano o abrir-se à transcendência. Há um deslumbramento diante do absoluto, do sobrenatural e do mistério. Somos seres que podem pensar o que não está aqui e que podem refletir sobre o que vai além da realidade imediata.

E é por poder pensar realidades que não podem ser vistas, que o ser humano pode refletir sobre a eternidade e relacionar-se com o transcendente. Assim, ao construir este nefesh hayah o próprio Deus transferiu à humanidade a capacidade de relacionar-se com Ele.

Prof. Doutorando Jorge Pinheiro